Hoje o post é uma revisita do whisky Highland Park Spirit of the Bear. Eu o conheci há quase dez anos e fui apresentado à ele por um amigo, que também pouco conhecia de whiskies das ilhas Órcades. Essa garrafa chegou para nós via familiares que moravam na Europa, na época na terra da rainha.
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De cabeça, 14 de setembro de 2019 foi exatamente a data que conheci este whisky, bem como a destilaria Highland Park. Como eu sei disso? Uma boa memória. Ou talvez uma foto datada. Enfim, de qualquer maneira, um whisky que precisa ser revisitado.
Se escrevo sobre o passado, não há como não contar uma história, não é mesmo? Vamos voltar um pouco mais no tempo; século 18, mais precisamente o ano de 1798, momento em que a destilaria é fundada. Onde? No Atlântico Norte, nas Ilhas Órcades, literamente "onde o vento faz a curva". Este vento que carrega as histórias de navegadores vikkings que desafiaram suas vidas em busca de encontrar o desconhecido.
O "berserkr" (guerreiro nórdico) é o nome de batismo desse rótulo. Não há como não honrar aqueles que vieram antes de nós. Não há como não vincular este destilado com as Ilhas Orkney. The Spirit of The Bear é uma homenagem ao espírito combatente dos guerreiros vikkings, uma inspiração para o destilado que o homenageia.
Desde 2019 essa expressão permanece a mesma, inclusive a contemplativa garrafa, com grafia nóridica em altorrelevo em seu transparente vidro. É praticamente um artefato forjado à mão por mestres ferreiros de muitos séculos atrás.
Um whisky escocês feito inteiramente de cevada maltada, duplamente destilado e envelhecido em barris de carvalho americano, porém finalizados em vinho Xerez. Este single malt é um dourado para âmbar, cuja cor é natural do barril, mas que demonstra a essência do combate e do fogo das fogueiras noturnas, que queimavam ao longo das noites nas florestas, aquecendo àqueles que batalhavam em suas guerras.
Percebe-se uma turfa saborosa, leve, delicada e não enjoativa. Mas, não é facilmente entendida, pois é crua, terrosa, algo como bater em uma brasa encandescente de lenha daquela fogueira. E isso tudo é possível detectar no primeiro gole. Minha dica; não pare por aí. O segundo gole é o que ruge o urso; a pancada alcoólica já foi embora, e o retrogoso de baunilha e as especiarias começam a travar aquela batalha em sua boca. O doce do mel? Sopra como o vento que leva embora a brasa da fogueira.
A turfa é pouca e agradável e a influência do vinho ex-Xerez seca a boca, destaca o tanino na gengiva superior e pede por mais uma taça. Em seu final, aquela pimentinha vermelha ardida te remete a uma agressividade que este whisky tem, não pela concentração de álcool, mas pela juventude do destilado.
É um whisky para ser degustado em silêncio, perto do calor do fogo, olhando para as sombras e lembrando que, dentro de cada um de nós, ainda vive um pouco da ferocidade e da resiliência dos antigos navegadores do Norte.
O Spirit of The Bear continua firme na taça, nas vendas e no coração da destilaria.
Este whisky entra na #curadoria do whisky? Definitivamente. Permanência obrigatória na estante.


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